O cancelamento do Lavi levou a indústria aeroespacial israelense a ajudar a China no desenvolvimento do J-10?
Quando a produção do Kfir terminou em 1986, com 212 aeronaves fabricadas, Israel estava ansioso para continuar o desenvolvimento e a produção de aeronaves de combate no país, como forma de manter certa independência de fontes estrangeiras e por razões econômicas.
A capacidade de produção de aeronaves cresceu juntamente com o Kfir, com a fabricação também de jatos executivos e aeronaves de transporte leve.
Componentes exclusivos para modernização de jatos e aeronaves comerciais mais antigos estavam se tornando uma especialidade, juntamente com acordos de compensação com empresas norte-americanas e conteúdo israelense em novos produtos estrangeiros.
Em 1980, as vendas de armamentos representavam 30% das exportações nacionais e empregavam de 20 a 25% da força de trabalho. Portanto, a IAI concebeu com confiança um novo caça que foi se transformando à medida que a Força Aérea Israelense (Israel Air Force - IAF) fornecia feedback.
Como extensão do projeto Kfir, este se tornou um jato monomotor de asa delta com canards, chamado Lavi (Leão Jovem). A decisão de prosseguir dependia de outras aquisições, especialmente porque a IAF estava considerando seriamente um grande investimento em uma variante de ataque exclusiva do F/A-18 Hornet. Quando essa possibilidade perdeu força entre 1979 e 1980, o Ministério da Defesa incentivou a Força Aérea a considerar o projeto da IAI. Ele substituiria o A-4 e o Kfir em 10 anos – o limite inferior da combinação de aeronaves de alto e baixo custo. Uma variante biposto também substituiria o TA-4 no treinamento avançado.
A aprovação formal do Lavi ocorreu em 1980, com um orçamento previsto de US$ 1,8 bilhão. O desenvolvimento em larga escala começou no outono de 1982. Os planos giravam em torno da compra de 240 monoplaces e 60 biplaces, com um pico de produção de 30 a 36 unidades por mês e um custo de dez a 30 milhões de dólares por unidade.
Observando que caças de baixo custo como o Kfir tinham um papel cada vez menor no campo de batalha em evolução, com possível baixa capacidade de sobrevivência, o Lavi evoluiu para um caça-bombardeiro multifuncional altamente integrado, com extensa aviônica e controles eletrônicos de voo e motor, comparáveis aos que estavam sendo construídos em outros lugares do mundo. Consequentemente, o risco tecnológico do programa aumentou, os custos cresceram e o cronograma se estendeu.
Em 1983, os fundos estavam escassos, mas o lobby israelense nos EUA conseguiu aprovar alguma ajuda financeira para o Lavi. O conteúdo de itens norte-americano aumentou, com empresas dos EUA contribuindo para o projeto e com a expectativa de construir 50% da aeronave. Isso limitaria as vendas do produto, forçando autorização dos EUA, assim como havia acontecido com o Kfir.
O primeiro Lavi voou em 1986, um ano atrasado e com um custo muito acima do orçamento. As primeiras entregas não eram esperadas antes de 1991. A taxa de produção planejada foi reduzida para se manter dentro do orçamento da IAF. Ao diminuir sua previsão de compra, o preço unitário subiu para US$ 50 milhões. A plena capacidade operacional e a prontidão para missões de esquadrão poderiam chegar tarde demais para atender às necessidades da Força Aérea.
Em 1987, o país já havia gasto US$ 2 bilhões com o Lavi antes mesmo do início da produção. Cerca de 90% do projeto foi financiado por ajuda militar norte-americana, enquanto os fabricantes dos EUA protestavam contra o apoio financeiro dos contribuintes a uma aeronave que competiria com seus produtos.
Embora os EUA tenham deixado claro que o uso da ajuda era de responsabilidade de Israel, apontaram as implicações futuras de gastos tão vultosos. Ofereceram alternativas, incluindo a co-produção de alguns caças norte-americanos. Muitos israelenses viram tudo isso como puro interesse próprio. À medida que o projeto Lavi passou a consumir 25% da ajuda norte-americana, o Estado-Maior recuou e alguns membros da Força Aérea Israelense também expressaram dúvidas, o Knesset ficou dividido e um debate nacional acirrado se instaurou. Outras prioridades seriam profundamente prejudicadas com uma parcela tão grande do orçamento consumida pelo Lavi. Esta foi uma das primeiras ocasiões em que o legislativo e muitas figuras importantes do governo se manifestaram contra um grande projeto do Ministério da Defesa.
Em agosto de 1987, o gabinete decidiu por unanimidade encerrar o programa Lavi. Isso representou uma aceitação tácita do domínio norte-americano sobre as aquisições de defesa israelenses e de certo controle indireto sobre as escolhas militares do país, visto que uma provável resposta israelense teria que ser considerada. A indústria aeroespacial israelense sofreu um grande impacto e enfrentou dificuldades por anos. O auxílio prestado à China no desenvolvimento do caça J-10 ajudou a minimizar os prejuízos.
No entanto, os EUA concluíram que a assistência incluiu a transferência não autorizada de tecnologia norte-americana compartilhada durante o desenvolvimento do Lavi. Isso causou uma grande controvérsia e os EUA suspenderam as transferências de tecnologia para Israel por um breve período.

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