Força Aérea ou Guarda Aérea?

 



(matéria publicada em 2017)

Com o advento da 5ª Geração de caças e o combate BVR, o “hiato” tecnológico entre os aviões de 4.ª e 5.ª gerações aumentou enormemente, ao ponto que muitas Forças Aéreas se tornaram forças de transporte, pois com a moderna guerra aérea perderam a capacidade de combater. Haverá um Futuro para as Forças Aéreas que não investirem em tecnologia?

Em março de 2017, a FAU (Força Aérea Uruguaia) desativou seus bimotores turboélices IA-58 Pucará. Em setembro de 2016, a FAM (Força Aérea Mexicana) aposentou seus F-5E, depois reativou-os e hoje sonha com a substituição de menos de um punhado de F-5E analógicos ainda. Não fosse o fato desses aviões serem “famosos” e tais eventos teriam passado desapercebidos, pois em termos de armas militares atuais, esses aviões não servem para nada. São máquinas velhas, resquícios de um tempo aonde a diferença entre as Forças Aéreas era medida em números, bem ao contrário de hoje, aonde um moderno avião de combate, como por exemplo o F-15E ou Rafale, equivale por uma dúzia de caças F-5E produzidos em 1974.

Entre a Primeira e a Segunda geração de caças, o ‘gap’ tecnológico entra elas não era tão imenso. A Segunda geração trazia melhorias sobre a Primeira, mas nem sempre essas melhorias eram assim tão boas. Exemplo disso foi o F-104. Após a Guerra da Coreia, os projetistas ouviram dos pilotos que eles queriam mais velocidade e rapidez ascensional. O que receberam? Um foguete com asas e só. O Starfighter manobrava menos que o F-86.

As Forças Aéreas encontraram o seu ponto de equilíbrio na 3.ª Geração. Na década de 1960, o A-37 Dragonfly era operado tanto pela poderosa Força Aérea dos EUA quanto pela Força Aérea Uruguaia e pela Força Aérea Boliviana. O avião, em que pese ser bom ou não, o A-37 da USAF estava em pé de igualdade contra o A-37 da FAU ou da FABol, o que os diferenciava era como eram voados.

A guerra indo-paquistanesa, os conflitos da África do Sul com seus vizinhos, a Guerra dos Seis Dias, Vietnã, Yom Kippur e Falklands, foram todas travadas entre Forças Aéreas em pé de igualdade, tendo um ou outro detalhe, como a capacidade de ter um AAM ou um treinamento melhor, que as diferenciava no campo de batalha, pois em suma, as máquinas se equivaliam.

Quando a Quarta Geração chegou, marcou o início do ‘gap’ tecnológico entre as Forças Aéreas. De repente, ter e manter um F-15 ou F-14 só era possível para quem pudesse pagar. Os britânicos elogiaram e testaram o F-15, no entanto não tiveram orçamento para adquirir e manter os aviões. Ou compravam o modelo norte-americano ou desistiam do Panavia Tornado. E o resultado, já conhecemos.

Conforme a tecnologia foi sendo refinada – e custando cada vez mais – o gap foi aumentando. Com a 4ª Geração e, suas constantes atualizações, um caça poderia fazer o trabalho que vários teriam de fazer. Enquanto um F-15 subia aos céus armado com 4 mísseis AIM-9 Sidewinder e 4 mísseis AIM-7 Sparrow e um radar capaz de localizar os oponentes a centenas de quilômetros, Forças Aéreas dotadas de F-5E teriam que colocar quantos no ar para contrapor um Eagle?

Foi o que aconteceu em 1991 durante a Guerra do Golfo. A Força Aérea Iraquiana era formidável, mas incapaz de lidar com o que havia de melhor da Quarta Geração (armas, sensores e táticas). Enquanto isso, do outro lado do mundo, a FAU continuava com seus Pucarás e A-37.

Durante a CRUZEX I (2002) a Força Aérea Brasileira tomou um choque de realidade. Ao combater contra os Mirage 2000 da França, ficou evidente a incapacidade da FAB de lutar dentro da moderna guerra aérea. O resultado foi benéfico para a Força, que mesmo sem dinheiro, se mexeu e conseguiu, num ato de desespero, modernizar o F-5E, elevando-o para o padrão F-5M, dando ao velho Tigre a capacidade de operar dentro da 4ª Geração.

Retrofiar velharias se tornou uma saída para as Forças Aéreas, como a Brasileira, sem dinheiro para investir em novos e modernos aviões. A tecnologia desenvolvida para a quarta geração permitiu que caças ultrapassados como o F-5E ou o Kfir fossem modernizados. Hoje é possível dar a um A-37 a capacidade BVR, mas quem em sã consciência iria para guerra com um Dragonfly?

Então chegou a Quinta Geração, com sensores saídos direto da ficção científica, com a tecnologia stealth e com armas capazes de acertarem um alvo entrando pela janela! O hiato entre a 4ª e 5ª geração não pode ser diminuído através de um pacote de atualização. É impossível elevar um F-5M, um F/A-18E ou um Rafale à Quinta Geração. Para ter a Quinta Geração é preciso pagar, e muito!

Hoje um Raptor pode abater um inimigo a centenas de km. Como um pequeno país como o Uruguai vai poder se igualar? Um míssil lançado por um F-22 pode atravessar o Uruguai em questão de minutos. A 5ª Geração não é só o avião. Adquirir um F-35 não basta para adentrar o reino da 5ª Geração. O F-22 e o F-35 são sistemas de armas, complexos, que vão desde a estrutura da pista da base até o radar de vigilância. Não adianta nada comprar o melhor vetor e defender as bases aéreas com mísseis terra-ar Igla, como no caso da FAB.

O Uruguai procura um novo avião de caça, assim como outras Forças Aéreas inexpressivas. Quais seriam estes? Um velho e cansado F-5E? Um subsônico AMX com a tecnologia de 1990 retirado diretamente dos esquadrões da FAB? Um F-16 com sua décima quinta MLU? A pergunta que essas Forças Aéreas precisam fazer é o que elas querem? Aviões de verdade, capazes de dissuadir uma aventura militar de outra nação ou apenas dissuadir aviões a serviço do tráfico de drogas?

Qualquer que seja a resposta, sem investimento sério, não haverá uma Força Aérea, mas sim, uma Guarda Aérea. Quem, de hoje para o Futuro, não tiver a capacidade stealth e a capacidade de combate BVR, não existirá como Força Aérea. O gap é imenso e não há espaço para quem quer voar só em desfile militar.


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