Como a França ajudou ambos os lados na Guerra das Falklands
Em suas memórias, o ex-secretário de Defesa do Reino Unido, Sir John Nott, descreveu a França como a "maior aliada" da Grã-Bretanha durante a guerra. Mas documentos antes secretos e outras evidências vistas pela BBC mostram que essa não era toda a história.
Antes da guerra, a França vendeu cinco mísseis Exocet à junta militar argentina.
Na época, poucos suspeitavam que a antiga reivindicação do regime sobre as Ilhas Malvinas levaria a uma guerra, e a venda passou praticamente despercebida. Mas quando, em maio de 1982, esses mísseis Exocet foram usados para atingir os navios britânicos HMS Sheffield e Atlantic Conveyor, com a perda de 32 vidas britânicas, um clima de pânico se instaurou em Londres.
No início do conflito, o presidente francês de esquerda, François Mitterrand, saiu em defesa da Grã-Bretanha ao declarar um embargo às vendas de armas francesas e à assistência à Argentina.
Ele também permitiu que a frota britânica rumo às Ilhas Falklands utilizasse as instalações portuárias francesas na África Ocidental, além de fornecer a Londres informações detalhadas sobre os aviões e armamentos que seu país havia vendido a Buenos Aires.
Paris também cooperou com os amplos esforços britânicos para impedir que a Argentina adquirisse mais mísseis Exocet no mercado mundial de armas.
Mas a política de Mitterrand de apoio à Grã-Bretanha provocou dissidência entre alguns altos funcionários do Ministério das Relações Exteriores francês.
Em um memorando de 7 de abril de 1982, o então embaixador da França em Londres, Emmanuel de Margerie, descreveu a Primeira-Ministra britânica Margaret Thatcher como "vitoriana, imperialista e obstinada". Ele acrescentou ainda que ela tinha uma "tendência a se deixar levar por instintos combativos".
Em outro documento intitulado "As Falklands: Lições de um Fiasco", o alto funcionário francês Bernard Dorin acusou a Grã-Bretanha de "arrogância de superpotência" e afirmou que o país demonstrou "profundo desprezo pelos latinos".
Nos bastidores, as ações falavam mais alto que as palavras. No que parece ser uma clara violação do embargo do presidente Mitterrand, uma equipe técnica francesa — que trabalhava principalmente para uma empresa com 51% de participação do governo francês — permaneceu na Argentina durante toda a guerra.
Em uma entrevista realizada em 1982 pela jornalista Isabel Hilton, do Sunday Times, o líder da equipe, Hervé Colin, admitiu ter realizado um teste específico que se mostrou inestimável para as forças argentinas.
"O processo de verificação consiste em determinar se o lançador de mísseis estava funcionando corretamente ou não. Três dos lançadores falharam. Localizamos a origem do problema e pronto. O resto foi simples."
A empresa francesa para a qual ele ainda trabalha, a Dassault, informou que, após 30 anos, não era possível confirmar se havia ou não autorizado o trabalho realizado por sua equipe na Argentina naquela época.
Mas agora está claro que, graças aos testes que realizaram, os argentinos conseguiram disparar mísseis Exocet contra as forças britânicas a partir de três lançadores de mísseis que anteriormente apresentavam defeitos.
François Heisbourg, que na época era conselheiro de segurança internacional do Ministro da Defesa francês, Charles Hernu, insiste que seu governo não sabia da presença da equipe técnica. Mas, segundo ele, o fato de ela estar lá evidentemente é indesculpável.
"Agora é inegável e... não se deve menosprezar isso. Não era isso que se esperava. É o tipo de coisa que prejudica o que deveria ter sido uma cooperação perfeita entre os dois países", afirma.
Mas nem todos no governo francês desconheciam a presença da equipe técnica na Argentina durante o conflito. Pierre Lethier, ex-chefe de gabinete da DGSE – o equivalente francês da agência de inteligência estrangeira britânica MI6 e do GCHQ (Quartel-General de Comunicações do Governo) – admite que seu departamento tinha conhecimento da presença deles.
"É para isso que serve a Inteligência. Você precisa de fontes. Tivemos dificuldades para infiltrar o exército argentino naquela época, durante o conflito das Falklands. Portanto, quanto mais ajudantes você tiver, melhor", diz ele.
Lethier contou que a DGSE tinha um informante entre os membros da equipe técnica, o qual conseguiu fornecer algumas informações sobre as atividades dos militares argentinos. No entanto, ele critica duramente a equipe francesa pela assistência técnica prestada.
"Isso beira a traição, ou a desobediência a um embargo", diz ele. "Quer dizer, é claro que se o chefe de Estado da França decreta um embargo, é um embargo. Ponto final."
O então Secretário de Defesa britânico, Sir John Nott, disse que, embora soubesse da presença de uma equipe técnica francesa na Argentina, seu trabalho não era considerado de grande importância. Os esforços britânicos, insiste ele, concentravam-se principalmente em impedir que os argentinos obtivessem mais mísseis Exocet. Os franceses deram à Grã-Bretanha uma ajuda substancial durante o conflito.
Mas, mesmo assim, ele se sente um pouco decepcionado com uma nação que antes descrevia como a maior aliada da Grã-Bretanha? Esta foi a sua resposta:
"Pedimos a Mitterrand que não desse ajuda aos argentinos. Se você me perguntar: 'Os franceses são um povo dissimulado?', a resposta é: 'Claro que são, e sempre foram.'"




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