40 anos da Operação “El Dorado Canyon”
No dia 15 de abril de 1986, há exatos 40 anos, os EUA atacavam a Líbia de Muamar Kadafi.
Apesar das investigações de ataques executados por terroristas de língua árabe contra alvos norte-americanos não tenham revelado provas de envolvimento direto da Líbia no caso da discoteca La Belle, em Berlim Ocidental (5 de abril de 1986), os serviços de inteligência dos Estados Unidos afirmaram não ter dúvidas quanto à responsabilidade do regime liderado pelo coronel Muamar Kadafi. Na semana seguinte ao atentado, circularam insistentes rumores de que a Casa Branca estava planejando alguma forma de ação militar direta contra a Líbia. O então presidente Ronald Reagan referiu-se abertamente a Kadafi como “aquele cachorro louco do Oriente Médio”.
Reagan pediu a seus aliados na Europa que impusessem imediatamente sanções políticas e econômicas à Líbia, mas não obteve apoio.. França e Espanha recusaram-se a permitir que os aviões militares norte-americanos envolvidos na operação sobrevoassem seu território; a República Federal da Alemanha não quis nem sequer culpar Kadafi diretamente pelas ações terroristas. A grande exceção foi a Primeira-Ministra Margaret Thatcher, da Grã-Bretanha, que autorizou o uso das bases em seu país para o lançamento da operação.
O início dos ataques
Os ataques coordenados às duas cidades líbias começaram às 23h54min, quando os A-7E e F/A-18A da Marinha lançaram seus primeiros mísseis anti-radiação contra bases de SAM e estações de radar que defendiam Bengázi. Ao mesmo tempo, os três EF-111A começaram a interferir nas frequências de defesa das vizinhanças de Trípoli. Minutos depois, dezoito F-111F completamente armados cruzaram a linha da costa líbia a cerca de 60 metros de altitude. Os norte-americanos pegaram os líbios totalmente de surpresa: Trípoli estava completamente iluminada, e os pilotos podiam ver os carros rodando nas ruas. Os F-111F executaram uma manobra planejada e dividiram-se em três células de seis aviões. Duas delas viraram abruptamente para a esquerda e dirigiram-se para a base naval de Sidi Bilal e para o quartel de Azízia, onde Kadafi morava. A terceira célula continuou rumo sul antes de encaminhar-se para o aeroporto militar de Trípoli.
Havia chegado a hora de o equipamento designador a laser “Pave Tack” dos F-111F fazer sua parte, mas começaram também a aparecer os resultados negativos das restrições impostas por Washington. Rumando para os alvos selecionados, os dois primeiros grupos de aviões rapidamente ascenderam a 150 metros para possibilitar a aquisição do alvo. No treinamento, o WSO alinha a retícula de mira no seu visor infravermelho — para “fixar” o casulo indicador no alvo: um fino feixe de laser sai da carenagem e vai até o alvo. Não importa qual seja a manobra efetuada, o “Pave Tack” é capaz de manter o alvo “iluminado”, graças à torreta móvel, permitindo que as bombas “Paveway” sigam o feixe laser e acertem o alvo em cheio. Na prática, no entanto, surgiram problemas. Apesar de os alvos serem grandes e relativamente fáceis de adquirir, os organizadores da missão tinham determinado que fossem duplamente fixados, pelo radar e pelo visor infravermelho, antes que as bombas fossem lançadas; qualquer falha dos sistemas deveria ser seguida de suspensão imediata do ataque. Por esse motivo, cinco F-111F foram impedidos de atacar. Quatro deles faziam parte do grupo de doze aviões que tinham como função atingir o quartel e a base naval. Os oito aviões restantes efetuaram ataques únicos em baixa altitude, lançando sua carga mortal de quatro bombas guiadas a laser de 907 kg cada antes de evadir para o norte a 835 km/h e a ce
rca de 75 metros de altitude, em direção ao ponto de encontro combinado com outro grupo de F-111F, sobre o Mediterrâneo.
rca de 75 metros de altitude, em direção ao ponto de encontro combinado com outro grupo de F-111F, sobre o Mediterrâneo.
A força de F-111F sofreu a perda de uma aeronave e sua tripulação. Os líbios estavam usando canhões ZSU-23-4 e SAM SA-2, 3 e 5, fornecidos pelos soviéticos. Os norte-americanos afirmam que algumas das baixas líbias no ataque foram causadas pela queda de seus próprios SAM sobre áreas civis, após a queima de seu combustível. Enquanto os oito aviões fugiam por sobre a linha da costa, um deles desapareceu. Três pilotos norte-americanos relataram ter visto o clarão de uma grande explosão quando passaram a sobrevoar o mar. Acredita-se que o avião tenha caído no mar em alta velocidade, provavelmente em decorrência de desorientação do piloto ou de falha dos sistemas de bordo. Uma longa busca foi conduzida nas primeiras horas da manhã seguinte, mas não foi encontrado nenhum sinal.
Para a célula restante de F-111F, o alvo era o aeroporto militar de Trípoli. Os aviões estavam armados com bombas retardadas de alto arrasto Mk 82 de 227 kg, que foram lançadas de cerca de 60 m de altitude. As imagens das câmaras de ataque mostram nitidamente a destruição de dois transportes quadrimotores Ilyushin Il-76. Da mesma forma que o grupo de F-111F atacando o outro alvo, essa célula também sofreu uma diminuição de seu poderio de ataque, quando uma aeronave foi forçada a suspender a ação, devido a falha de seus sistemas. Quando as últimas bombas caíam sobre o alvo, os jatos se dirigiam para o ponto de encontro sobre o mar.
Enquanto a USAF castigava seus alvos em Trípoli, a USN atacava Bengázi. As investidas para aniquilação de SAM e radares efetuadas pelos A-7E e pelos F/A-18A haviam eliminado as ameaças. Quando os A-6E se dirigiam para seus alvos com bombas de 227 e 340 kg, foi ouvida a transmissão de um comandante de bateria de SAM e estação de radar, informado a seus superiores que as defesas estavam inativas, vítimas dos ataques de Shrike e HARM. Um intenso, mas inútil fogo de solo foi dirigido contra as aeronaves da Marinha. Dois aviões tiveram que suspender seus ataques por falha dos sistemas. A base aérea de Benina foi atacada com sucesso, sem que houvesse tentativa de decolagem dos caças MiG-23. Pelo menos quatro MiG foram destruídos, além de dois helicópteros Mil Mi-8 e um transporte Fokker F.27. Várias outras aeronaves foram severamente danificadas.
Por volta das 00h13min, todas as aeronaves da Marinha já estavam ao largo da costa líbia e rumando para seus respectivos porta-aviões. As do Coral Sea já estavam todas a bordo por volta das 00h46min, enquanto o América resgatou sua última aeronave às 00h53min. A força de F-111F dirigiu-se para o primeiro ponto de reabastecimento da etapa de retorno, onde encontrou-se com os KC-10A que haviam ficado bem distantes do perigo. Um avião teve problemas de superaquecimento nos motores, e foi forçado a desviar para Rota, na Espanha, durante o longo voo de volta à Grã-Bretanha. O caminho de volta praticamente seguiu ao inverso o plano de voo estabelecido para a ida até os alvos. Por volta das 10h, todas as aeronaves que retornaram já haviam pousado em segurança.
As informações obtidas pelos SR-71 confirmaram que os cinco alvos visados haviam sido atingidos, e que danos consideráveis tinham sido provocados. Áreas civis também tinham sido atingidas — segundo os norte-americanos, por engano —, mas em termos gerais a missão foi vista como bem-sucedida.
Em seu pronunciamento à nação logo após os ataques, Reagan afirmou: “Quando nossos cidadãos sofrerem abusos ou forem atacados em qualquer lugar do mundo, sob as ordens diretas de um regime hostil, nós responderemos, enquanto eu- ocupar o cargo. A autodefesa não é apenas um direito nosso, é nosso dever”.
FONTE: Aviões de Guerra #59



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